Mindfulness entrou em voga há algum tempo, e tem sido vista como uma atividade benéfica e acessível para qualquer pessoa. O que de fato é muito bom, mas nem sempre a divulgação acompanha uma base criteriosa de como e porquê fazer uma prática como Mindfulness.

Ainda que suas bases estejam bem estabelecidas e divulgadas e seja possível encontrar inclusive cursos de formação bem estruturados, há uma grande confusão em relação há alguns conceitos que fazem parte da prática.

Eu baseei este artigo neste outro, escrito em inglês, que fala sobre o que não é a prática de Mindfulness, sobre os principais equívocos de quem procura a prática como iniciante.

O objetivo é deixar mais claro algumas questões relativas à prática de Mindfulness, ou Atenção Plena como traduzido em português, e facilitar a compreensão de o que de fato pode se esperar da técnica. Haverá no final do artigo alguns links de referência.

Mindfulness não é Meditação

Esta primeira, que eu resolvi incluir e que não estava na lista original, pode parecer estranha, mas é baseada em dois fatores: A prática da Meditação engloba outras vertentes e objetivos, assim como a prática de Mindfulness engloba outras práticas, que não apenas a Meditação. Embora exista uma convergência entre as duas (existe meditação mindfulness em várias práticas ao redor do mundo) uma não necessariamente é a outra, uma distinção importante. Práticas como a Meditação de Compaixão, ou práticas meditativas de expansão de consciência podem implicar exercícios de visualizações ou estados de consciência que não necessariamente te trazem ao momento presente, com foco e consciência plena. Muito pelo contrário! E isso não é nem bom nem ruim, apenas não é mindfulness.

Há um pensamento de que a prática Mindfulness seria uma forma de meditação secular, ou seja, não religiosa, como as práticas budistas. De fato a prática engloba o exercício da atenção plena, assim como (algumas) práticas budistas. Mas o exercício de atenção plena pode ser realizado em muitas outras atividades e momentos, sempre com o intuito de aumentar nossa percepção do momento presente, com compaixão e sem julgamentos.

“Mindfulness é a simplicidade em si mesmo. Trata-se de parar e estar presente. Isso é tudo”.


Jon Kabat-Zinn

A práticas de atenção plena em tarefas cotidianas, como caminhar, executar uma tarefa manual, ou mesmo se alimentar. Desde que esta atividade seja feita com foco, com estado de presença e compaixão. Aqui tem algumas práticas com instruções.

Mindfulness não é relaxamento

Outro pensamento equivocado é de que para uma prática de atenção plena basta “esvaziar a mente” e relaxar. E que, ao final de uma processo meditativo você estará mais “relax” e de bem com a vida. Será?

Isso obviamente pode acontecer e praticantes relatam que se sentem menos estressados, mais relaxados e com um pensamento mais positivo após as práticas.

Mas este não é o foco per se da prática atenção plena. Uma vez que em mindfulness o objetivo está em manter uma atenção plena no presente – em seus pensamentos, suas sensações no corpo, no ambiente em volta – este exercício pode trazer um certo incômodo, principalmente no início quando ainda não estamos acostumados a realizar este exercício de atenção sem julgamento e sem expectativa. Ao nos darmos conta de certos pensamentos que surgem ao iniciar a prática, ou nos concentramos em algum aspecto do momento presente, podemos experimentar sentimentos de ansiedade, por exemplo, por achar que está fazendo algo errado, ou que não está relaxando (ter uma expectativa irreal para a prática).

Parte desse desconforto é justamente o oposto do que a prática de atenção plena pretende – uma atenção sem julgamentos e de forma compassiva – mas isto leva algum tempo para acontecer. Podem ocorrer também sensações físicas, devido à uma postura estática em práticas de meditação sentadas e estáticas. Em geral, todos os incômodos são passageiros segundo a maioria dos praticantes e não tem um efeito duradouro. Assim, não se preocupe se desconfortos surgirem durante a prática. Pense como uma massagem: Existem práticas que são apenas para fins de relaxamento, e outras que são para fins específicos, de cura ou desbloqueio de tensões, onde é esperado algum grau de desconforto uma vez que estamos trabalhando com questões mais profundas em nosso corpo.

Importante dizer que existe um progama específico que utiliza a técnica mindfulness para a redução de stress, o MBSR – Mindfulness-Based Stress Reduction, criado em 1979 pelo médico americando Jon Kabat-Zinn. Nele o praticamente tem como foco a redução do stress e melhora de qualidade de vida. Mas durante a prática, algum desconforto pode acontecer e é normal, até se compreender melhor os objetivos e dinâmicas da prática.

Mindfulness não é mágica

Stephen Little é um dos grandes divulgadores da prática no Brasil, dando palestras e workshops, incluindocursos pela School of Life, e mantém uma postura crítica. Ele gosta de usar o termo McMindfulness, criado pelo Dr. Miles Neale, para falar sobre a banalização da prática de Atenção Plena, como se ela fosse uma espécie de fast food terapêutica.


Uma prática que, originalmente no mundo budista, era ensinado para pessoas corajosas que quiserem aprofundar a sua vida ética e espiritual, agora está sendo reduzida em uma técnica superficial que promete muitos benefícios em prazos curtos. Li uns artigos na mídia recentemente que descrevem as características de uma pessoa que pratica mindfulness. Nossa! Nas listas incríveis de habilidades, só faltou “conseguir andar na água”!

Stephen Little

É muito comum ler artigos que dizem provar que a prática de mindfulness alivia o stress, dores crônicas, acalma a mente, aumenta a empatia, enfim: cura o câncer e faz levitar (essa parte eu inventei). Estas afirmações não vem sem controvérsias. E embora realmente existam todos os benefícios sendo estudados – e relatados – uma coisa que em geral não é tão falada em artigos de blogs é: Você tem que praticar frequentemente para o efeito poder ser possível. E não só num workshop de final de semana. A prática colhe os benefícios num exercício constante, de preferência diário, de atividade consciente. É a mesma coisa com musculação. Você realmente pode emagrecer e ficar mais forte. Mas isso não vai ocorrer se você fizer uma vez por mês.

Mindfulness não é um refúgio

Pode parecer que sentar para meditar ou se concentrar num ambiente calmo, tranquilo, silencioso e agradável é uma espécie de refúgio, de uma vida contemporânea carregada por múltiplos estímulos, um senso de caos e de sobrecarga de tarefas. Para alguns pode até parecer difícil parar para isso, mesmo que por 10 minutos, sendo que “há tanta coisa a ser feita”.

Mas se a atividade parece uma promessa de paz e tranquilidade, a prática pode ser outra. Prestar atenção, e focar em seu momento presente, pode ser desconcertante se o que vai aparecendo são sensações e pensamentos que você justamente queria um escape para não pensar neles.

Mindfulness provê um método, não um refúgio, para explorar a dor e o sofrimento com aceitação, curiosidade e equilíbrio emocional

Nicholas T. Van Dam

Para algumas pessoas que estão em estados de ansiedade e agitação constante parar, mesmo que por dez minutos e se concentrar, pode ser uma experiência desafiadora, já que estão acostumadas justamente a este ritmo caótico e de estímulos constantes. A prática de atenção sem julgamentos e expectativas é possível, mas necessita de um tempo para acontecer de forma plena.

Mindfulness não é uma panacéia.

Embora os promissores efeitos positivos da prática, ela não serve como um substituto para a medicina tradicional, ou mesmo para um processo terapêutico convencional caso seja o que você procura – ou precisa. É sempre recomendado você conversar com seu médico ou terapeuta para saber se a prática é adequada, ou mesmo se ela vai lhe trazer os efeitos desejados.

Quando for procurar um local ou grupo para iniciar na prática, é importante pesquisar sobre ele antes de entrar. Perguntas como quem criou o programa que você vai entrar, se o instrutor é certificado por alguma escola ou instituto, e se ele pratica frequentemente são questões que podem ser rapidamente resolvidas e farão uma diferença no resultado final de seu caminho.

Em São Paulo, a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) criou um programa de aprendizado e outro para formação de instrutores de Mindfulness, com o apoio da Universidade de Oxford. É um programa sólido, de 8 semanas para um início de prática – necessário inclusive para você poder se inscrever para um curso de formação.

Referências:

https://theconversation.com/we-dont-yet-fully-understand-what-mindfulness-is-but-this-is-what-its-not-110698

https://www.iniciativamindfulness.com.br/oque

https://www.mindfulnessbrasil.com/blog/efeitos-indesejados-da-meditacao/

https://www.theschooloflife.com/saopaulo/eventos/aula-especial/mindfulness-em-momentos-de-incerteza/

https://papodehomem.com.br/stephen-little-no-mundo-ocidental-aprendemos-uma-forma-de-autoconfianca-que-traz-um-buraco-emocional/

https://www.mindfulnessbrasil.com/

https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3313571/mod_resource/content/1/Antes%20de%20iniciar_Orientac%CC%A7o%CC%83es%20Gerais.pdf

https://cristianethiel.com.br/meditacao-mindfulness-8-exercicios-rapidos-que-cabem-facilmente-em-seu-dia/

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