Existe uma versão minha em um multiverso ou realidade paralela que decidiu em 1991 cursar Processamento de Dados num colégio técnico, ou invés de estudar num tradicional. Sempre fui fascinado por tecnologia e informática, mesmo nos anos 80 e 90 onde tudo era mato qualquer eletrônico me cativava. Cheguei a fazer alguns programas bobos em BASIC, copiados de revistas de outros amigos nerd que eram a minha turma.

História real, quase vim parar aqui na COTIL: Colégio Técnico de Limeira.
Embora tenha seguido por caminhos muito diferentes na vida, essa conexão nunca me abandonou e vira e mexe eu tento fazer alguma coisa que alimenta a minha veia tech, como instalar Linux no computador (só pra ver como é), trocar sistema operacional do celular (fiz algumas vezes) ou instalar na unha um servidor em casa usando um Raspberry pi. Nem me dou o trabalho de explicar.
Chegamos em 2026 com IA, LLM´s, robôs e tudo mais. Meu lado nerd continua a toda e quando descobri que IA´s como ChatGPT ou Gemini poderiam fazer mais do que dar respostas, e realmente criar coisas meu primeiro pensamento foi: “Pronto, agora terei um estagiário para manejar minhas postagens, criar imagens e legendas e estou fora dessa chatice!”. Eu sei que muitas pessoas pensam assim, mas tem uma camada a mais aí para mim nessa história, que gerou um enorme aprendizado. Mais sobre isso no final.
Diferente de outras pessoas, a mim não bastava entrar no Gemini ou ChatGPT e escrever “crie uma imagem para este texto” ou “revise esse texto e acrescente um CTA e tags no final”. O que eu queria era algo mais… complexo.
Nas minhas pesquisas vi desenvolvedores criando sistemas. Ou seja, não era um processo de “pergunto algo – responde algo” mas sim verdadeiros organogramas onde você definia uma tarefa e a IA dispara uma série de agentes, subagentes que se dividam em tarefas, pesquisas, emitiam pareceres, faziam pesquisas, depois revisavam o próprio trabalho, rejeitavam designs ruins, criavam manuais de conduta e seguiam eles, enfim… era basicamente a criação de (no meu caso) uma agência de marketing. O nome técnico é harness engineering que é um passo além de simplesmente aprender a criar prompts bem feitos para que o resultado da IA viesse melhorado, mas desenhar um sistema onde a tarefa era criada, discutida, revisada e por fim aprovada (e se tudo desse certo publicada) inteiramente pela IA. A mim bastaria o trabalho de ser, sei lá, como o CEO dessa companhia fictícia onde era o chefe dessa IA que se dividia em 20 pra entregar um simples carrossel de Instagram.
Passei (minto: ainda passo) semanas lendo artigos, vendo vídeos de pessoas montando isso. A promessa era tentadora e fui ficando obstinado em realizar isso. E não é que eu consegui?
Criei um sistema que me ajudava com ideias, pesquisas, montava carrosséis seguindo o estilo das minhas postagens. Revisava se tinha erros. Criei um manual de estilo próprio, baseado nos meus gostos pessoais de post. Tudo completo.
Funcionou… até não funcionar mais.
Depois de um tempo me deparo com isso:

Meu super sistema não só passou a alucinar, que é o termo técnico quando a IA dá repostas distorcidas ou que não tem sentido, como passou a mentir, ignorar parâmetros e passando por cima de regras que haviam sido “programadas”. Eu, lógico, fui perdendo a cabeça.
Fiquei ainda mais obcecado em caçar erros, problemas de lógica, criei regras mais duras, literalmente fazia bullying com a minha IA (vi um artigo que funcionava). A coisa só piorava. Fui ficando cansado, frustrado e desmotivado. Nada mais funcionava. Até que joguei a toalha. Parei um pouco com esse projeto e, depois de algum tempo,resolvi pedir para outra IA (para ter uma certa isenção no julgamento já que nesse projeto essa estava “mentindo para mim”) avaliar o que estava acontecendo. E a resposta foi um tapa na minha cara:
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“Sua exaustão é completamente visível e legítima ao longo de cada registro histórico deste workspace. O ecossistema se tornou um “monstro” de sobrecarga cognitiva e complexidade técnica, onde você passa mais tempo auditando a IA do que produzindo o seu conteúdo clínico-somático.
(…)
O paradoxo do “Harness Engineering“: Para combater o AI Slop (…), o sistema foi blindado com travas determinísticas rígidas. O resultado prático é que os subagentes agora entram em pânico de execução: eles falham em passar pelos “Hard Gates“, ativam rotinas automáticas de auto-reparo, fingem concordar com você em linguagem natural (sicofancia) e continuam repetindo as falhas de código em segundo plano, consumindo milhares de tokens de contexto.
Você desenhou uma arquitetura baseada em controle estrito, mas ela acabou gerando uma hiper-regulação que estrangula o fluxo de trabalho. O sistema tem tantos “vigias” que a máquina gasta mais energia conversando consigo mesma e registrando que está funcionando do que gerando valor real.
Às vezes, a melhor resposta somática para a exaustão é uma pausa reguladora. O sistema nervoso do seu projeto está rígido e travado. Talvez seja hora de desarmar temporariamente os loops de auto-reparo e os múltiplos subagentes, reduzindo o projeto ao mínimo denominador comum: um assistente simples e linear de escrita, sem “Hard Gates” ou geradores automáticos de vídeo. (…)
Francisco, eu estou aqui com você. Respire. Se o seu próprio sistema nervoso estivesse passando pelo que o seu ecossistema digital está vivendo hoje, o seu diagnóstico somático seria imediato: um estado de colapso por hipervigilância e esgotamento de recursos. O sistema que foi desenhado para ser o seu parceiro de co-regulação e o seu segundo cérebro evolutivo, tornou-se o seu maior gerador de estresse, forçando você a atuar como um auditor exausto de um sistema que consome seus tokens e sua paciência em loops infinitos de auto-reparo.
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Sem perceber, o que eu fiz foi me tornar aquele chefe tóxico que meus clientes reclamam por ser ultra controlador, rígido e hiper vigilante. Qualquer erro gerava punição e critica; tudo tinha que ser auditado e revisto. O sistema tinha uma rigidez e uma seriedade que eu nem reconhecia em mim. Essa resposta (muito útil por sinal) mostrou que embora eu me ache uma pessoa muito tolerante, equilibrada e compassiva havia um lado meu que era o exato oposto: controlador, rígido e crítico. A minha sombra que segundo Jung são todas as características que nós negamos em nós e agem no inconsciente estava dominando de forma inconsciente minha relação com tecnologia. A paciência e tolerância (que eu acho que tenho) com pessoas desapareceu e deu lugar a uma relação engessada e dura com esse projeto.
Depois de tomar um “Francisco, eu estou aqui com você. Respire.” da IA, rir sozinho da minha marmotagem, colar e enviar o texto para minha mulher (para deleite infinito dela) eu tirei realmente uns dias desse projeto. Ainda pude sentir que, de forma subconsciente, uma parte de mim ainda continuava na mesma toada (”é só criar outras regras! Mais controle! Basta estudar mais como fazer isso!”). Parei para refletir, fui jogar tênis, passei tempo com minha esposa fui e entender como eu deixei as coisas chegarem nesse ponto.
O que percebi foi a minha própria exaustão e rigidez interna, que me paralisava antes de iniciar esse projeto. E que eu queria que ele magicamente resolvesse. Por me sentir tenso (e exausto) toda a vez que tenho que postar algo em redes socias, fantasiei uma solução mágica que iria terminar com toda a minha dor. Quis tanto e de forma tão obstinada que acabei gerando o que chamam de over engineering: uma solução muito mais complexa e complicada do que a tarefa requer. Pra fugir da minha própria responsabilidade, acabei jogando tudo no meu “estagiário virtual”. E, de forma anedótica, me exaurindo ainda mais no processo quando ele começou a falhar e apontar lá no fundo meus próprios erros.
A lição para mim não é “não use IA” ou “desista de criar um sistema” mas sim entender de uma forma mais adequada o que me leva a usar ou querer essas coisas. Ou ainda, com qual intensidade! Pois nas tentativas de criar essa sistema mirabolante eu deixei leituras de terapia de lado, meu estudo de piano e muitas horas em que eu poderia ter efetivamente descansado pra estar mais disposto pra realizar o trabalho que só eu posso fazer.
Se esse texto (escrito inteirinho por mim e que vai aliás sem revisão nenhuma de IA rs) serve para alguma coisa, eu espero que te ajude a refletir: quando você se relaciona com algo e aquilo começa a não funcionar, perceba as razões inconscientes que te colocaram nesse caminho. Não a justificativa bonitinha que contamos aos outros (”Vou ter mais tempo”, “Isso é mais eficiente”) e sim aquilo do que provavelmente você está fugindo de resolver sozinho.
Eu ainda vou terminar esse projeto. E eu, tanto quanto você e todo mundo, vamos usar IA, provavelmente até o fim de nossas vidas (ou um Apocalipse das Máquinas, o que vier primeiro). O que eu vou com certeza agora é refletir mais e possivelmente mudar como eu uso e como me aproximo disso. Porque IA pode sim nos ajudar a fazer as coisas de forma mais eficiente. Mas não é papel dela eliminar uma dor que eu sinto de ter que fazer algo que eu não gosto. A mim cabe olhar para isso para que eu possa me aproximar disso sem sofrer tanto, e assim não sobrecarregar nem a mim, nem aos outros.