Comunicar não é só falar.

Comunicar não é só falar.

Por que temos tantos problemas de comunicação?

Com toda certeza, um dos problemas com que mais trabalho em consultório com meus clientes é a falha de comunicação no casal. São inúmeros problemas causados por falhas que acontecem na hora de conversar, as quais afetam até os relacionamentos mais amorosos. A frase “nós não conseguimos nos entender” costuma ser dita como se o casal fosse composto por duas pessoas estranhas uma para a outra. Aliás, fez sucesso nos anos 90 um livro que se chamava “Os homens são de Marte, as mulheres são de Vênus”, de John Gray, que retratava a comunicação entre homens e mulheres de uma forma leve, mas também estigmatizada.

Em geral, um equívoco comum é pensar que comunicar é só falar, e que a outra pessoa tem que entender e ponto. Essa visão linear foi descrita e estudada na metade do século passado pelos engenheiros Claude Shannon e Warren Weaver, que propuseram um modelo mecânico de comunicação: um emissor codifica uma mensagem, envia-a através de um canal e o receptor a decodifica do outro lado. Nessa perspectiva, o mal-entendido seria apenas um ruído técnico no sinal.

No entanto, a comunicação humana real não funciona como a transmissão de um rádio. Ao investigar a mecânica da incompreensão, a pesquisadora Katherine Hampsten recorreu a um modelo mais sofisticado e realista: o modelo transacional. Nele, a comunicação é comparada a um jogo de arremesso e captura de uma bola de argila fresca.

Quando você fala, você não envia uma informação. Você molda um pedaço de argila com suas próprias mãos e o arremessa. A outra pessoa, ao capturar a argila, inevitavelmente deixa nela a marca de suas próprias mãos, suas impressões. O significado não é transmitido intacto; ele é reconstruído e constantemente deformado pelas experiências passadas, vieses, gênero, cultura e estado emocional de quem recebe. A argila nunca retorna para o arremessador com o mesmo formato com que partiu.

O mal-entendido, portanto, não é uma falha da outra pessoa. Ele é a condição básica de duas mentes se comunicando e tentando se sintonizar. E, nas relações afetivas, o maior deformador dessa argila comum são o trauma e as nossas experiências passadas.

Como o trauma deforma nossa comunicação

Na neurofisiologia do trauma, o sistema nervoso autônomo opera sob um mecanismo contínuo de varredura inconsciente que o cientista Stephen Porges denominou neurocepção. Antes mesmo que o córtex cerebral processe cognitivamente uma palavra ou expressão, o corpo já avaliou se o ambiente e as pessoas ao redor representam segurança, perigo ou ameaça à vida.

Quando um indivíduo carrega marcas de traumas de desenvolvimento, negligência ou estresses crônicos não integrados, suas “mãos relacionais” — suas impressões — tornam-se biologicamente rígidas. A neurocepção defensiva passa a atuar como um filtro perceptual severo.

Diante de um parceiro que fala em um tom de voz ligeiramente mais baixo ou que demora a responder a uma mensagem, o sistema nervoso em alerta não avalia a situação com curiosidade. Ele reage. A rigidez somática de quem captura a mensagem esmaga a argila da comunicação. Um silêncio neutro é decodificado instantaneamente como rejeição. Um limite saudável colocado pelo outro é interpretado como abandono. A fiação biológica do trauma faz com que o corpo gaste energia defendendo-se de ameaças relacionais que não estão de fato acontecendo no presente.

Como descreveu o psiquiatra Bessel van der Kolk em sua principal obra sobre o tema, O Corpo Guarda as Marcas, o trauma reorganiza a forma como o cérebro e o corpo gerenciam a percepção da realidade. A pessoa traumatizada não apenas lembra do passado; ela continua a percebê-lo fisicamente em cada interação do presente.

Uma solução através da percepção corporal

Tentar resolver problemas de comunicação concentrando-se apenas em regras linguísticas ou em “falar da maneira certa” costuma falhar, pois ignora a neurobiologia da defesa gerada por experiências estressantes ou traumáticas prévias. Se o sistema nervoso de quem escuta está em estado de luta ou fuga, as palavras são interpretadas através das lentes da sobrevivência. Assim, toda comunicação se torna um potencial conflito aberto.

A regulação passa, necessariamente, pelo corpo. É preciso “flexibilizar as mãos que capturam a argila”. Isso envolve:

  1. Reconhecer a ativação física: Em vez de reagir imediatamente à mensagem com uma acusação, o indivíduo é convidado a pausar e notar a contração em seus próprios músculos, a aceleração cardíaca ou o aperto no peito. O reconhecimento somático interrompe o ciclo de reação automática.
  2. Estimular a curiosidade sensorial: Conforme aponta o neurocientista Judson Brewer em suas pesquisas sobre hábitos da mente descritas em Desfazer a Ansiedade, a curiosidade é o estado mental mais eficaz para nos tirar da ruminação e nos ancorar no presente. Perguntar-se internamente “o que estou sentindo no meu corpo agora?” desativa a hiperatividade das redes de defesa.
  3. Buscar a corregulação: A comunicação saudável floresce quando dois sistemas nervosos sinalizam segurança mútua através de tons de voz calmos (prosódia) e contato visual relaxado, permitindo que a argila da conversa seja trocada sem ser deformada pela urgência do perigo.

A psicoterapia de orientação somática não promete relacionamentos livres de conflitos. Seu papel é flexibilizar o tônus do sistema nervoso autônomo para que possamos receber o outro sem a rigidez das defesas passadas. A montanha das nossas relações não exige que sejamos perfeitos; ela apenas pede que estejamos presentes o suficiente para segurar a conversa com mãos gentis.

Se problemas de comunicação estão presentes em sua vida e deteriorando suas relações, saiba que você não está só. Se precisar de ajuda, entre em contato comigo. Estou à disposição para te ajudar a melhorar isso.


Referências Científicas e Leituras Recomendadas