A pergunta que uma cliente me fez – e que eu também já fiz, anos atrás.
Muito antes de eu pensar em ser terapeuta, foi uma pergunta que não saía da minha cabeça desde cedo que me aproximou da terapia.
“Tem algo errado comigo”. Eu não me lembro exatamente quando eu pensei isso pela primeira vez, e nem como começou. Mas eu ainda estava no colegial quando minha mãe sugeriu que eu fizesse terapia. E depois, sozinho, eu busquei isso na faculdade (essas primeiras experiências tiveram resultados desastrosos e me afastaram da terapia durante muitos anos).
A terapia saiu de cena durante um tempo, a pergunta jamais.
Vida que segue, muitos anos se passaram e cá estou eu trabalhando há anos já como terapeuta e tentando toda semana ajudar clientes que chegam com várias questões – essa está entre elas. A resposta – você não está quebrado, não tem nada para consertar nesse sentido – nem sempre traz alívio. e muitas vezes demora um tempo para ser absorvida. E em muitas vivências, estudos, imersões, processos pessoais e terapias a forma de lidar com isso também foi se alterando: “há aí dentro uma criança ferida; isso é um trauma; há um bloqueio energético; você está fora de seu propósito, você está constelado; está em estado neurótico.“
Ainda na semana passada fiz uma entrevista com uma cliente e a pergunta final: “Tem conserto?” Sorri, de forma compassiva por me enxergar anos atrás me perguntando a mesma coisa.
Hoje eu sei que não tem conserto. Porque não é uma questão de estar quebrado e ser consertado. Mas é uma questão de ajuste. Ou melhor: de alinhamento.
Ninguém quer fazer terapia. Talvez, num mundo ideal, ninguém precisaria fazer. A base da terapia vem de um sentimento extremamente desconfortável, que é a sensação de impotência de tentar lidar com algo sozinho e não conseguir. O processo começa quando essa pessoa chega em algum consultório – passando por ciclos de sentimentos de culpa, vergonha e inadequação – e admite para outra pessoa: eu preciso de ajuda.
É essa pessoa que atravessa a porta do consultório (ou aparece na tela do Zoom). Alguém que não só está com problemas, mas que tem um enorme incômodo por estar presente na frente de um estranho e ter que admitir isso. Ninguém quer estar nessa posição.
Nos acostumamos com essa visão de que se tem algo quebrado, leva para um profissional consertar. Máquinas, carros, objetos. Vamos no médico consertar a perna quebrada, um sistema imunológico que não funciona como deveria, um intestino que não digere direito. Tem algo de errado com isso; tem algo de errado comigo.
E ora, por que então eu digo para as pessoas que elas não estão quebradas quando adentram a sala de terapia? Que não há nada para se consertar e sim sobre alinhar?
Isso vem – e aqui eu preciso dizer que eu vou explicar isso de uma forma bem básica e absolutamente incompleta – de como nós funcionamos. Nosso corpo é uma das maravilhas da natureza em termos de ser orientado para a sobrevivência, antes de tudo. Por design evolutivo nosso corpo e sistema nervoso são muito adaptativos. Se eu nascer no Brasil aprendo a lidar com calor, com mosquitos e a falar português. Se na Lapônia, a caçar peixe sob o gelo e aprender a distinguir pelo menos 26 tons diferentes de neve (pois é, o povo lapão tem 26 palavras diferentes para neve, fruto dessa adaptação). Essa flexibilidade para ajustar faz com que nosso sistema nervoso perceba o ambiente e vá se adaptando em tempo real com ele. Sentindo, nos movendo, nos tensionando e relaxando.
Os problemas acontecem quando algo acontece, de forma imprevisível ou muito intensa, e ”desalinha” esse sistema. Por viver num ambiente hostil, como uma casa com pais disfuncionais ou violentos, o corpo aprende a se fechar para conexões, para se proteger. Ele se adapta para sobreviver. Mas essa situação passa, a pessoa sai desse ambiente e conhece pessoas amorosas, com as quais muitas vezes não consegue se conectar de forma satisfatória. Por trás disso tem um organismo respondendo a uma memória traumática de uma forma inadequada. A pessoa muitas vezes só reconhece o estranhamento da situação: “essa pessoa me ama, por que não consigo amá-la de volta?” Sem perceber que é um sistema de defesa que ainda funciona a pleno vapor (e ele tem lá suas razões) quando não precisa mais. O sistema de defesa não está quebrado. Está, na verdade, funcionando muito bem. Talvez – e esse seja o problema – bem demais. Esse é o desalinhamento.
A memória traumática é muito forte dentro de nós. Literalmente, ela é codificada em nosso sistema nervoso de uma forma diferente, tem muito mais força, mais persistência do que memórias ordinárias, como o que tomamos de café da manhã semana passada. Essa força muitas vezes congela um comportamento no tempo. Reagimos da mesma forma em situações diferentes. É isso que gera a percepção de que “estamos quebrados”. Numa situação perfeitamente agradável (para os outros) reagimos de forma agressiva, ou introspectiva ou furtiva. A situação, em si, não é o problema. Como estamos reagindo a ela, de forma desalinhada da realidade, sim.
Dentro de terapias voltadas ao trauma, como a Experiência Somática, o que se busca é realinhar nosso sistema nervoso ao mundo ao nosso redor. Reorientar um sistema de proteção que não faz nada além de seu papel, de tentar impedir a pessoa de se machucar muito de novo, ou de passar de novo por traumas, a perceber a realidade como ela é, agora. Ajudar o corpo da pessoa a entender que o trauma – o evento traumático – está no passado. É um ajuste simples, que as vezes requer tempo, paciência e delicadeza, ao lidar com um corpo acostumado a tomar muita pancada da vida.
E, muitas vezes, isso nem requer terapia. E isso também é graças ao nosso corpo e como ele funciona. Pois pela sua flexibilidade e adaptação, nós nos estruturamos a depender dos outros, num processo de corregulação. E muitas vezes é dentro de um ambiente amoroso ou com novos vínculos saudáveis que esse processo acontece como a natureza evoluiu. De forma orgânica. Você entra para uma aula de yoga e aprende a gostar do próprio corpo. Faz uma prática de tênis e descobre um amor para toda a vida. Aprende a expressar seus sentimentos através da música ou da pintura.
Mas, nem sempre isso acontece tão bem. Às vezes esse reencontro não acontece sozinho, e tudo bem. Ninguém é uma ilha isolada, e está tudo bem pedir ajuda de vez em quando.
Eu, daqui desse lado, só espero que você um dia possa alcançar (ou já tenha alcançado, rs) uma outra pessoa e ultrapassado a linha do desamparo e dizer: “Preciso de ajuda. Você pode me ajudar?”.