Ou quando a vitória do outro brilha mais que suas próprias e porque para algumas pessoas é tão difícil comemorar suas conquistas.
Pense na seguinte cena: um amigo próximo recebe uma promoção no trabalho ou realiza um grande sonho de vida. Imediatamente, você sente uma onda de alegria no peito. Você o abraça forte, comemora e sente o coração aquecido por esta conquista. A felicidade dele parece viva e vibrante, dentro de você.
Agora, mude a lente para sua própria vida. Você acabou de superar um desafio imenso, concluiu um projeto difícil ou alcançou uma meta pela qual batalhou por meses. O que você acontece em seu corpo?
Para muitas pessoas, em vez de expansão e celebração, o que surge é um silêncio incômodo. Uma sensação de indiferença, como se aquilo “não fosse nada de especial”, ou um sussurro interno que diz: “você não fez mais que a obrigação”. A conquista do outro brilha como um farol; a sua parece desaparecer na sombra.
Se esse padrão é familiar para você, saiba que isso não é falta de gratidão ou um simples falta de ânimo. Isso é uma assinatura de adaptação do seu sistema nervoso, moldada profundamente pelas primeiras experiências de conexão e sobrevivência emocional.
Para entender como ficamos tão sintonizados com o sentir alheio, precisamos olhar para a nossa biologia. Na década de 1990, uma equipe de neurocientistas liderada por Giacomo Rizzolatti, na Universidade de Parma, descobriu um grupo especial de células cerebrais: os neurônios espelho.
Esses neurônios funcionam como pontes de ressonância. Eles são ativados tanto quando realizamos uma ação quanto quando observamos outra pessoa realizando essa mesma ação. Se você vê alguém sorrindo com os olhos brilhando de alegria, os seus neurônios espelho disparam simulando essa mesma experiência internamente. Eles são a base neurobiológica da empatia, da nossa capacidade de “sentir com” o outro e decifrar suas intenções e emoções sem precisar de palavras. É o que faz você sorrir brincando com um bebê e ele ir aprendendo a sorrir de volta.
Nós somos, biologicamente, programados para nos conectar. Mas por que, em alguns adultos, esse “espelho” funciona perfeitamente para refletir o brilho do outro, enquanto a capacidade de gerar e sentir o próprio brilho parece desligada?
Quando somos bebês e crianças, nós não temos a capacidade de regular nosso próprio sistema nervoso sozinhos. Nós dependemos inteiramente da corregulação com nossos pais ou cuidadores. Como aponta a Teoria Polivagal de Stephen Porges, o sistema nervoso do bebê busca constantemente sinais de segurança, presença e calor no ambiente para se sentir a salvo.
Nesse processo de desenvolvimento, a sintonização é fundamental. A sintonização é a capacidade do cuidador de ler as necessidades internas da criança (seja fome, sono, medo ou alegria) e responder a elas com ressonância.
Quando uma criança corre até os pais para mostrar um desenho simples ou contar que conseguiu equilibrar-se na bicicleta, ela não está apenas buscando atenção; ela está pedindo validação para estabelecer seu valor no mundo. Em um ambiente saudável e responsivo, os pais acolhem essa conquista: o olhar deles brilha, a voz se eleva em celebração e o corpo deles se inclina com entusiasmo.
Essa corregulação positiva envia uma mensagem visceral para o sistema nervoso da criança: “O que eu sinto importa. Minhas conquistas são seguras e têm valor. Eu mereço ser visto.” É através desse feedback contínuo que aprendemos, no nível celular, a dar valor a nós mesmos e a saborear nossas próprias vitórias.
Infelizmente, nem sempre esse espelho de validação está disponível. Por múltiplos motivos — traumas não resolvidos dos próprios pais, pressões extremas por sobrevivência, estresse crônico ou dinâmicas familiares rígidas —, muitos cuidadores não conseguem oferecer essa presença sintonizada.
Alguns pais ignoram as pequenas vitórias, falham em comparecer a momentos importantes ou reagem com frieza. Outros, marcados por uma criação severa, menosprezam o esforço do filho sob a justificativa de que aquilo “é apenas o dever”.
Para uma criança, a perda de conexão com os pais é sentida pelo sistema nervoso como uma ameaça existencial. Para sobreviver e garantir o afeto necessário, a criança desenvolve uma estratégia brilhante e dolorosa: ela se desliga de si mesma para se sintonizar inteiramente no outro.
A atenção, que deveria estar ancorada no próprio corpo e nas próprias necessidades, é projetada totalmente para fora. A criança aprende a decifrar cada microexpressão do cuidador: “Ele está bravo? O que eu preciso fazer para agradá-lo? Como posso fazê-lo sorrir?”. Suas próprias emoções e o orgulho pelas suas conquistas são suprimidos, pois expressá-los não gera conexão — às vezes, gera rejeição.
O resultado é um adulto que se tornou um “especialista somático” em sentir a felicidade ou necessidade alheia (através da hiperativação dos neurônios espelho direcionados ao outro), mas que permanece analfabeto em relação ao próprio prazer. Suas conquistas parecem vazias ou insignificantes porque, na infância, nunca houve um espelho seguro que as celebrasse de volta.
A boa notícia é que o sistema nervoso possui plasticidade. Padrões de sobrevivência antigos, embora enraizados profundamente no corpo, podem ser renegociados e transformados.
Às vezes, a cura começa a acontecer de forma suave por meio de relacionamentos afetivos seguros na vida adulta. Estar ao lado de um parceiro ou de amigos que genuinamente nos enxergam, celebram nossas conquistas e sustentam um olhar de admiração ajuda a reconstruir, aos poucos, novas vias de corregulação positiva.
No entanto, quando essa autodesvalorização está gravada de forma visceral, costuma ser necessária a ajuda de um processo terapêutico focado no corpo.
A psicoterapia somática aborda essas feridas de desenvolvimento não apenas pela fala ou pela análise intelectual do passado, mas pela conscientização das sensações físicas no presente. Em terapia, trabalhamos para ajudar o corpo a tolerar e sustentar a sensação de expansão. Aprendemos a pausar diante de uma pequena vitória pessoal, a sentir o peso das pernas no chão, a notar o calor no peito e a respirar através da sensação de orgulho sem que o sistema nervoso dispare um alerta de perigo ou de inadequação.
Aos poucos, o seu sistema nervoso aprende que é seguro ocupar espaço. Que é seguro brilhar. E que saborear a sua própria jornada não diminui o amor pelo outro — apenas permite que você comemore a sua existência com a mesma dignidade e beleza com que celebra o mundo.
Se você se reconhece nesse lugar de desconexão, onde o sucesso sempre parece pertencer aos outros e o seu próprio valor é constantemente minimizado, saiba que você não precisa carregar esse peso sozinho. A terapia somática pode te ajudar a resgatar a comunicação do seu corpo consigo mesmo, permitindo que você volte a sentir e a celebrar quem você realmente é.
Para saber mais
- RIZZOLATTI, G.; CRAIGHERO, L. (2004). The mirror-neuron system. Annual Review of Neuroscience, 27, 169-192.
- SCHORE, A. N. (2001). Effects of a secure attachment relationship on right brain development, affect regulation, and infant mental health. Infant Mental Health Journal, 22(1‐2), 7-66.
- PORGES, S. W. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-regulation. W. W. Norton & Company.
- SIEGEL, D. J. (1999). The Developing Mind: How Relationships and the Brain Interact to Shape Who We Are. Guilford Press.