Juntos e Separados

casal vendo tv juntos mas desconectados um do outro olhando para o celular.

A ilusão da conexão na vida moderna

“Nós nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão pouco disponíveis.”

Essa frase foi dita pela psicoterapeuta Esther Perel em uma conversa recente com o diretor Spike Jonze (diretor de Her, se ainda não viu vale a pena!), em um evento sobre amor, solidão e tecnologia. Não foi o teor da frase que me tocou, até porque talvez isso não seja novidade para ninguém, mas a delicadeza com que ela conseguiu resumir, numa única frase, um sentimento de desamparo que cresce em meus clientes, em conhecidos, no mundo todo. Estamos todos aqui. E, ao mesmo tempo, não estamos.

Pense na seguinte cena: é fim de noite, você e seu parceiro ou parceira estão sentados juntos no sofá. Vocês estão ali, no mesmo ambiente, respirando o mesmo ar. A televisão está ligada em alguma série que vocês concordaram em “assistir juntos”. Mas, na prática, cada um de vocês está mergulhado no brilho azulado do próprio celular, rolando o feed infinitamente. Como o pessoal de humanas na minha época de faculdade adoraria dizer, “é uma presença e uma não presença ao mesmo tempo”.

A hiperconectividade nos deu uma ilusão perigosa: a de que estar acessível no WhatsApp ou responder a um stories é sinônimo de estar disponível. Mas presença física e disponibilidade emocional são registros completamente diferentes no nosso sistema nervoso.

Na perspectiva das terapias somáticas e da neurofisiologia, conexões autênticas exigem o que chamamos de “corregulação”. Nós, mamíferos, regulamos nosso sistema nervoso através dos outros. Precisamos de troca de olhares, da tonalidade da voz, da respiração sincronizada e da atenção plena do outro para que nosso sistema parassimpático (o do relaxamento e da segurança) entenda que estamos a salvo, conectados e acolhidos. De que, de fato, não estamos sós.

Quando você está com alguém que está fisicamente ali, mas com a atenção sequestrada por uma tela, o seu corpo não registra união; ele registra rejeição. Seu sistema nervoso entra em estado de atenção sutil. A falta de ressonância emocional ativa o sistema nervoso simpático, como se dissesse: “apesar de tudo parecer bem, tem algo errado no ar”.

É por isso, por exemplo, que muitas vezes você está perto de um bebê e por mais que você esteja ao lado dele, ele continua pedindo atenção. Só a partir do ponto em que ele se sente notado, é que seu sistema nervoso começa a se regular para baixo, relaxando. Nos bebês a capacidade de se autoregular em estado de relaxamento é muito limitada, necessitando de seus cuidadores primários para isso acontecer. É através de pais e familiares calmos e amorosos que esse processo acontece. Não basta estar perto. Tem que estar presente.

Na psicologia contemporânea, os pesquisadores deram um nome para isso: “Technoference” (tecnoferência) ou “Phubbing” (phone + snubbing, que é o ato de ignorar alguém por causa do telefone celular).

Um estudo conduzido pelos pesquisadores McDaniel e Coyne (2016) mostrou que essa “tecnoferência” nas relações não é apenas uma queixa moderna sem importância. A frequência com que pequenas interrupções tecnológicas acontecem no dia a dia do casal está diretamente ligada à diminuição na satisfação do relacionamento e ao aumento de quadros de ansiedade e sintomas depressivos. Além disso, outra pesquisa realizada por Roberts e David (2016) detalhou como o phubbing cria um ciclo de distanciamento que corrói as bases do apego seguro, porque gera um estresse crônico de fundo – aquela angústia enraizada de não se sentir visto, de não ser prioridade.

O que acontece com o nosso interior quando aceitamos viver em um estado de quase-presença? Começamos a anestesiar o próprio corpo. Deixamos de perceber as nossas sensações corporais que nos enviam esses sinais de estresse, como quando nossos ombros estão tensionados enquanto digitamos algo sem importância; não notamos o peso das nossas pernas no sofá, se estamos com sede (e quando). Tudo como um mecanismo de defesa, pois essa anestesia, esse não sentir nos ajuda a lidar com a angústia da rejeição sentida pela falta de contato. E, por ironia, vai de forma crônica tornando o contato real mais difícil, pois anestesiados começamos a perder sutilezas e delicadezas de mudança de tons de voz, gestos e conexões reais.

As telas exigem pouco da nossa vulnerabilidade, o que, para um sistema nervoso desregulado ou já machucado por traumas anteriores, parece ser um negócio seguro. Afinal, é muito mais fácil evitar um atrito emocional rolando o TikTok do que encarar uma conversa difícil olho no olho. Só que esse atalho digital tem um custo alto.

Não se trata de demonizar a tecnologia. A resposta também não é jogar o celular no rio e ir morar no mato. O convite aqui é para que a gente recupere a nossa agência, a nossa capacidade de escolher quando e como estamos presentes.

Em terapia somática, costumamos dizer que você não pode se conectar verdadeiramente com o outro se não estiver conectado com você mesmo. E estar conectado com você mesmo exige ancoragem.

Perceber que se está anestesiado pela tecnologia muitas vezes gera estranhamento. Se essa quase-presença tem gerado angústia nas suas relações e você sente que seu sistema nervoso ficou preso nessa armadilha de hipervigilância e distração crônica, saiba que existe caminho de volta.

E o caminho pode começar com exercícios fáceis de simplesmente prestar atenção ao corpo e seus sinais, sem a interferência de telas por um tempo. Pode ser lendo lado a lado com o parceiro, fazendo uma pausa breve para só ficaram abraçados por um tempo, sem agenda ou sem objetivo e ir prestando atenção no que acontece. O corpo relaxa? Tensiona? Surge uma necessidade de sair, fugir ou correr fazer outras coisas? Ou o corpo consegue ir aos poucos se soltando e descansando no outro?

Pode-se caminhar pequenos passeios sem celular, como ir andando para algum café ou restaurante, mas sem celular. Nada precisa ser radical, e a ideia é começar a se conectar consigo e o outro, e menos com a tecnologia.

São atitudes que vão realinhando a nossa antena interna para perceber onde estão as origens de tensões, ansiedades e necessidades não atendidas que precisamos aprender a corrigir. Muitas vezes estamos já tão cronicamente ansiosos ou desconectados de nós (e do outro) que esses exercícios simples podem ser desafiadores de se colocar em prática. Mas aí já é assunto para a sala de terapia 🙂

Como está o seu nível de conexão com você e com o outro?

Para saber mais

  • MCDANIEL, B. T.; COYNE, S. M. (2016). “Technoference”: The interference of technology in couple relationships and implications for women’s personal and relational well-being. Psychology of Popular Media Culture, 5(1), 85–98.
  • ROBERTS, J. A.; DAVID, M. E. (2016). My life has become a major distraction from my cell phone: Partner phubbing and relationship satisfaction among romantic partners. Computers in Human Behavior, 54, 134-141.
  • PORGES, S. W. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-regulation. W. W. Norton & Company.

Esse texto procurou trazer as reflexões baseadas no diálogo “Love, Loneliness, and AI” ocorrido em 2026 entre Esther Perel e Spike Jonze no SXSW.

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