O jogo da Regulação

Como jogos, a presença e atuação dos pais no brincar moldam a empatia do sistema nervoso infantil.

Sempre adorei jogos, de todos os tipos. Gostava de brincar em grupo, de jogar cartas e de inventar brincadeiras com amigos. Tive uma infância cheia de jogos e diversão. Eu era da época em que a vizinhança inteira se juntava. Eu morava em uma casa no interior de São Paulo. Dividíamos a turma entre “mocinhos e bandidos” e combinávamos a distância máxima permitida (dois quarteirões, até a rua de cima, podia entrar na casa dos outros?). Isso valia para polícia e ladrão, pega-pega e esconde-esconde. Às vezes, juntávamos a turma para jogar bola na rua. Outras vezes, brincávamos na casa de alguém. A minha era a preferida, porque meus pais deixavam a gente tocar o terror no quintal. Se chovia, ou não dava para brincar (à noite, por exemplo), era jogo de cartas ou de tabuleiro.

E a mesma coisa se repetia nas férias em família. Eu jogava cartas com minha avó e minhas primas, ou com meus tios e primos de ambos os lados. Curiosamente, minha mãe nunca participava. Ela dizia que não gostava de jogos. Eu achava que era só gosto pessoal e, quando era pequeno, via isso apenas como gostar ou não gostar. Quando me casei, minha mulher também disse que não gostava de nenhum jogo. Isso a deixava de lado quando íamos visitar meu irmão, outro aficionado por jogos, quando brincávamos com minhas sobrinhas. Só depois de conversar bastante com ela fui entendendo que não gostar de jogos não é apenas uma questão de gosto, mas algo mais profundo, que envolve nosso sistema nervoso, nossa criação e nosso desenvolvimento social.

Quando pensamos em brincadeiras e jogos infantis, é comum olharmos para essas atividades como meros passatempos para gastar energia ou distrair as crianças. No entanto, para a neurobiologia do desenvolvimento, o brincar é um espaço sagrado e um dos principais laboratórios de construção do sistema nervoso. É através do jogo lúdico que a criança experimenta o mundo, testa limites e, acima de tudo, aprende a regular suas próprias emoções através da conexão com o outro.

Portanto, brincadeira é coisa séria! E dessa forma não apenas brincar (e ter acesso a brincar) mas como brincar, qual a qualidade dos jogos e também das interações com outras crianças e também adultos, importa muito mais do que pode parecer.

Pesquisas científicas consistentes no campo da psicologia do desenvolvimento mostram que os jogos não são neutros. Estudos liderados pelo psicólogo Douglas Gentile e seus colaboradores apontam que os jogos funcionam como simuladores de comportamento social. Crianças que jogam frequentemente jogos de guerra, eliminação e conflito hostil direto (como o clássico War) demonstram, ao longo do tempo, menor empatia e menor disposição para comportamentos de ajuda e cooperação no mundo real. Esse tipo de dinâmica estimula respostas cerebrais de alerta e sobrevivência, treinando o sistema nervoso para enxergar o outro como uma ameaça constante a ser superada.

Por outro lado, crianças envolvidas em jogos de lógica, raciocínio e cooperação (onde os participantes precisam decifrar problemas juntos ou ajudar uns aos outros) desenvolvem índices significativamente mais altos de empatia e comportamento pró-social. Essas atividades ativam a inteligência socioemocional e a capacidade de assumir a perspectiva do outro, exercitando o córtex pré-frontal e as redes neuronais de conexão.

No entanto, a escolha do jogo é apenas metade do caminho. A verdadeira arquitetura da empatia acontece na interação. É por isso que deixar a criança jogar sozinha diante de uma tela ou mesmo em um tabuleiro perde a maior riqueza do brincar: a corregulação com outras pessoas.

Como explica a Teoria Polivagal de Stephen Porges, o sistema nervoso infantil é imaturo e precisa da presença de um sistema nervoso adulto regulado para encontrar segurança e aprender a modular suas próprias respostas de estresse. Quando jogamos com nossos filhos, estamos oferecendo nossa voz, nosso olhar sintonizado e nossa postura física para ajudá-los a navegar pelas inevitáveis frustrações, derrotas e excitações do jogo.

O grande desafio é que nós, como pais e adultos, também levamos para a mesa de jogo a nossa própria história, nossas crenças e nossas feridas de desenvolvimento.

Se um pai cresceu sob a pressão implacável da performance, se foi educado sob a ótica da escassez (onde só há espaço para um vencedor e perder significa humilhação ou falta de valor), ele tenderá a projetar essa hipercompetitividade no jogo com a criança. Diante de um erro ou de uma postura mais colaborativa do filho, esse pai pode reagir com impaciência, rigidez ou cobrança excessiva. Visceralmente, o sistema nervoso desse cuidador está em estado de luta ou fuga. A criança, por neurocepção, lê esses sinais de perigo e aprende que, para manter o amor e a conexão com o pai, ela também precisa ser ultra-competitiva, agressiva ou focada apenas no ganho individual. Ganhar passa a ser não só uma brincadeira, mas questão de sobrevivência, pois a criança acredita que precisa vencer para ser amada (e ser amada garante sua sobrevivência).

Por outro lado, pais que conseguiram curar essas dinâmicas de performance e escassez conseguem compreender que, no desenvolvimento, ceder em alguns momentos para que o coletivo ganhe é uma estratégia inteligente de sobrevivência social e de afeto. Ao jogar de forma colaborativa, o pai demonstra através de seu tom de voz calmo e riso compartilhado que errar é seguro, que a derrota não ameaça a conexão e que colaborar gera prazer mútuo. Esse estado de segurança ativa o ramo parassimpático ventral do sistema nervoso da criança, permitindo que ela relaxe, aprenda e integre a empatia no nível celular.

A presença ativa e consciente dos pais na brincadeira é o que transforma uma simples tarde de jogos em uma sessão profunda de cura geracional e fortalecimento socioemocional. E, também, fica claro porque algumas pessoas detestam jogos ou algumas brincadeiras. Sem a devida corregulação e sem desenvolver as habilidades sociais (e mesmo físicas) inerentes a estas etapas de desenvolvimento, jogar não era sinônimo de diversão, mas de estresse, luta e ativação simpática do sistema nervoso. Eram momentos onde a pessoa ao invés de ser nutrida, acolhida e desenvolvida era ridicularizada, estressada ou mesmo rebaixada frente aos demais. Hoje, a pessoa diz que não “gosta” de jogo, mas quem iria gostar se fosse criada em ambientes hostis ao seu desenvolvimento lúdico?

Para ajudar você a praticar essa conexão de forma saudável em casa, selecionei cinco sugestões de jogos que estimulam a lógica, a cooperação e a empatia, divididos entre opções diversas para fazer em família:

  1. The Mind: Um jogo de cartas cooperativo onde todos jogam como uma única equipe. O desafio é descartar as cartas em ordem crescente sem falar, fazer gestos ou combinar sinais. A dinâmica exige que os participantes olhem nos olhos uns dos outros, sintam o ritmo de hesitação dos parceiros e sintonizem seu tempo de reação. É um exercício direto de leitura emocional e conexão, que me surpreendeu quando joguei com minhas sobrinhas pois ele parece um pouco “mágico” e tem tudo a ver com corregulação da forma mais lúdica possível.
  2. Bandido: Também um jogo onde os participantes atuam como uma única equipe, tentando impedir que um bandido escape de um labirinto. Além de muito divertido, ele é fácil de jogar e pode ser jogado em qualquer número de pessoas.
  3. Dixit: Um jogo focado em ilustrações oníricas e metáforas. O narrador da rodada escolhe uma carta da sua mão e dá uma pista (uma frase, uma palavra ou o título de um filme). Os outros jogadores devem escolher uma carta de suas próprias mãos que combine com a pista. O objetivo é adivinhar qual era a carta original do narrador. Exige que as crianças façam um esforço mental de lógica subjetiva para tentar entender como o outro pensa e associa conceitos visuais.
  4. O Pote das Soluções: Escreva em pequenos papéis situações cotidianas que exigem empatia (ex: Um colega novo na escola que está lanchando sozinho; Um irmão mais novo cujo desenho rasgou sem querer; Um amigo que errou o chute no futebol e o time perdeu). Coloque-os em um pote. Em família, cada um sorteia uma situação e deve encenar ou propor uma solução de ajuda que beneficie a todos. O objetivo é construir respostas empáticas de forma divertida e sem julgamentos.
  5. Construção arquitetônica: Usando blocos de madeira, objetos da casa ou algo mais formatado como blocos de Lego, os jogadores devem construir uma única estrutura de forma cooperativa. A regra é que os jogadores não podem falar e cada um só pode tocar em blocos de uma determinada cor. Eles precisam negociar as formas do edifício apenas observando o movimento das mãos do outro e cedendo espaço para a cor do parceiro. É um excelente exercício de coordenação, paciência e corregulação física. Uma variação desse jogo, que eu aprendi inclusive num workshop de Experiência Somática, é criar uma enorme máquina ou estrutura humana. Uma pessoa é designada construtor. Cada participante tem que, de forma autônoma e criativa, se imaginar como uma engrenagem ou motor (de qualquer coisa) fazendo gestos e sons. O papel do construtor e juntar todas as “engrenagens” e “motores” numa única máquina, usando todos os participantes.

Ao escolher a brincadeira e a postura com que você se senta ao chão para brincar, você está desenhando o mapa de segurança que seu filho usará para se relacionar com o mundo. Jogue o jogo que aproxima, acolhe e ensina que ninguém precisa vencer sozinho para ter valor.

Para saber mais:

  • GENTILE, D. A. et al. (2009). The effects of prosocial video games on prosocial behaviors: International evidence from correlational, longitudinal, and experimental studies. Personality and Social Psychology Bulletin, 35(6), 752-763.
  • PORGES, S. W. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-regulation. W. W. Norton & Company.
  • BROWN, S. (2009). Play: How it Shapes the Brain, Opens the Imagination, and Invigorates the Soul. Avery.
  • SIEGEL, D. J. (2012). The Developing Mind: How Relationships and the Brain Interact to Shape Who We Are. Guilford Press.
  • BADENOCH, J. (2008). Being a Brain-Wise Therapist: A Practical Guide to Interpersonal Neurobiology. W. W. Norton & Company.

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