Uma Crise de Realidade
Já sentiu seu cérebro “fritar” depois de algum tempo rolando o feed em redes sociais? Aquela sensação de exaustão que não se resolve com uma noite de sono nem um fim de semana de descanso? Pois é. Agora, não é apenas o excesso de informação que nos cansa a ponto de não sentirmos mais restaurados mesmo depois de descansarmos um pouco. Há hoje um desafio que começa a ficar onipresente e que a inteligência artificial impõe ao nosso sistema nervoso: a dúvida constante sobre o que é real e o que não é.
Uns meses atrás houve uma onda de imagens restauradas, com o avanço de um engine de imagens da Google. Resolvi experimentar e carreguei uma foto antiga do meu avô para ver como ela ficaria. O resultado me surprendeu, pela qualidade e pela rapidez, mas também me deixou estranhamente desconfortável. A imagem gerada por IA, é preciso saber, não é apenas uma “limpeza” de riscos e borrões, como se fosse um tratamento alla photoshop. A IA literalmente reconstrói a imagem do zero. O resultado final, era inegavelmente meu avô. E, ao mesmo tempo, não era. Pela intimidade familiar, a primeira imagem gerada era linda, mas tinha uma expressão que meu avô jamais fazia. Lembro de pensar quando vi o resultado, “esse sorriso feliz não é dele”. Não ajudou muito quando eu mandei essa imagem para um amigo que prontamente me retornou um video dele se mexendo e sorrindo ainda mais, o que gerou calafrios na minha mãe, um pedido de deletar o conteúdo e não mais “mexer com os mortos”.


Estamos testemunhando uma transição do excesso de informação para uma crise de realidade, onde a própria fundação da nossa percepção é abalada. É como se seu sistema nervoso fosse como um rádio tentando sintonizar uma frequência que muda constantemente, sem aviso prévio. É assim que estamos agora.
Nosso cérebro, essa maravilha da evolução, foi desenhado para confiar no que vê, ouve e sente. Desde o início da humanidade a sobrevivência dependia da nossa capacidade de interpretar com precisão os sinais do ambiente. É um contrato tácito com a realidade: o que percebemos através dos nossos sentidos é, em grande parte, confiável. No entanto, a IA, com sua capacidade de gerar conteúdos cada vez mais indistinguíveis do real – sejam imagens, vídeos ou textos – quebra esse contrato fundamental. Não se trata apenas de fake news ou do bombardeio de estímulos das redes sociais; é a própria fundação da nossa percepção que é contestada.
Estudos recentes têm explorado como o cérebro humano reage a essa nova fronteira. Pesquisas publicadas na Nature Communications em 2025, por exemplo, revelam que o cérebro processa sentimentos como realidade, e a constante exposição a estímulos sintéticos pode distorcer essa percepção intrínseca. O “hiper-realismo” da IA, embora possa enganar o sistema visual, muitas vezes cria um “vale da estranheza” (uncanny valley) no sistema límbico, a parte do cérebro responsável pelas emoções. Há uma dissonância sutil, um desconforto que, mesmo que não seja conscientemente percebido, sinaliza ao nosso sistema que algo não está completamente certo. Essa falha na distinção entre o real e o sintético é o ponto de partida para a sobrecarga que experimentamos.
Quando somos constantemente bombardeados a conteúdos onde a linha entre o autêntico e o sintético se dissolve, nosso sistema nervoso entra em um estado de alerta contínuo, uma espécie de hipervigilância. É como se estivéssemos sempre escaneando o ambiente, tentando decifrar um enigma invisível: “Isso é real? Foi produzido por uma IA?”. Esse esforço extra não é trivial. Ele consome recursos preciosos do nosso córtex pré-frontal, a parte do cérebro responsável pelo raciocínio, planejamento e tomada de decisões. É o que a Harvard Business Review chamou de “AI brain fry” – uma fadiga mental profunda, resultante da supervisão constante de ferramentas de IA ou da tentativa de validar cada pedaço de informação.
O Dr. Shalaby , em sua pesquisa de 2024 sobre os perigos digitais e cognitivos da IA, aponta que essa fadiga pode levar à desregulação do nosso Sistema Nervoso Autônomo (SNA), a orquestra silenciosa e subconsciente que rege nossas respostas de estresse e relaxamento. O SNA, composto pelos sistemas simpático (aceleração) e parassimpático (desaceleração), é projetado para nos proteger de ameaças reais. No entanto, a constante tentativa de entender a realidade como sendo real ou fabricada mantém o sistema simpático cronicamente ativado, resultando em um estado de hiper estimulação. Este estado de alerta constante, sem uma ameaça física clara para combater ou fugir, é metabolicamente exaustivo e profundamente desregulador para o corpo e a mente.
Consequências Sistêmicas
As consequências dessa sobrecarga vão muito além do cansaço mental individual. A dificuldade em discernir a verdade pode levar a uma fadiga de decisão, onde até as escolhas mais simples se tornam exaustivas. Pode se instalar uma ansiedade estrutural, uma insegurança basal sobre o mundo ao nosso redor. Se não podemos confiar no que vemos na tela, como isso afeta a confiança nas nossas relações interpessoais e na própria estrutura social?
O Dr. Khaymovich , em um artigo de 2025, discute a “crise de confiança” gerada pela erosão da realidade pela IA, destacando os riscos significativos para a saúde mental e o tecido social. A proliferação de deepfakes e conteúdos sintéticos não apenas engana, mas também mina a base da confiança, essencial para qualquer sociedade funcional. Estudos como o de Eiserbeck et al. sobre o impacto neuropsicológico de rostos gerados por IA sugerem que essa desconfiança pode ter raízes profundas em nosso processamento emocional e cognitivo, afetando até mesmo a forma como percebemos as emoções em outros rostos, reais ou não.
Na perspectiva da psicotraumatologia, essa crise de realidade pode ser vista como um trauma coletivo. A perda de um chão comum de realidade, onde não se sabe mais o que é verdade, gera uma sensação de desamparo e vulnerabilidade em escala global. Em casos mais graves, a dissociação digital, onde o excesso de IA nos afasta do corpo e da experiência sensorial direta, pode agravar quadros de ansiedade e depressão. O estado de hiperestimulação crônica, mantido pela constante necessidade de discernir o real do sintético, impede que o sistema nervoso se regule, perpetuando um ciclo de estresse e exaustão.
Caminhos e bases para um processo de regulação

Então, como podemos navegar por essa nova paisagem digital sem sobrecarregar nosso sistema nervoso? A abordagem somática oferece caminhos valiosos para a regulação e o restabelecimento do equilíbrio:
Filtros de Realidade Conscientes: Não se trata de se isolar da tecnologia, mas de desenvolver uma “higiene de percepção”. Limitar o tempo de exposição a conteúdos potencialmente sintéticos e buscar ativamente fontes de informação verificadas e confiáveis. Escolher conscientemente o que nutre sua mente e seu sistema nervoso, em vez de ser passivamente bombardeado. Isso pode ser feito através de processo de detox de redes socias, exclusão de perfis que compartilham muito material gerado por IA, diminuição do feed para apenas pessoas conhecidas, redução do tempo de tela, instalação de aplicativos que regulam quanto tempo se passa em redes sociais, ou mesmo desinstalar aplicativos de redes do celuar, e acessá-los apenas no computador ou no tablet por exemplo
Algumas dessas ideias podem parecer extremas, ou excessivas, ainda mais em tempos de conectividade quase em tempo integral. Mas se o que está em jogo é a sua saúde mental, pode valer muito a pena.
Ancoragem no Corpo (Grounding): Esta é uma das ferramentas mais poderosas da terapia somática. Voltar para as sensações físicas presentes ajuda a “resetar” o sistema nervoso, trazendo-o de volta ao presente e à realidade tangível. Práticas simples como respirar profundamente, sentir os pés no chão em exercícios de grounding, fazer exercícios de atenção plena (mindfulness) baseados em exercícios corporais, ou reservar um tempo para estar em contato com a natureza ao redor, podem interromper o ciclo de hipervigilância e ativar o sistema parassimpático, promovendo relaxamento e segurança.
Ceticismo Saudável vs. Paranoia: Desenvolver a capacidade de questionar sem cair na paranoia. Entender que a IA é uma ferramenta poderosa, mas que exige de nós uma nova forma de discernimento. Como discutido por Chirayath et al. ao explorar o paradoxo entre cognitive offloading (terceirização cognitiva) e cognitive overload (sobrecarga cognitiva), precisamos aprender a usar a IA de forma estratégica, sem delegar a ela a nossa capacidade crítica e de validação da realidade. Manter nosso pensamento crítico e aprender a não delegar tudo para as novas IA´s passa a ser fundamental.
Cultivo da Presença: Em um mundo onde a realidade se torna fluida, a presença no aqui e agora, a conexão com o próprio corpo e com as relações humanas autênticas, tornam-se âncoras essenciais. A terapia somática ou mesmo práticas corporais como esporte, danças, etc oferece ferramentas para desenvolver essa presença, fortalecendo a capacidade de autorregulação do sistema nervoso.
A tecnologia avança a passos largos, muitas vezes mais rápido do que nossa biologia consegue se adaptar. É um convite para olharmos para dentro e cultivarmos a resiliência do nosso sistema nervoso. Como você tem sentido seu corpo e sua mente após longos períodos online? Essa é uma pergunta que vale a pena ser sentida, explorada e respondida com a sabedoria do seu próprio organismo.
Se você sente que seu sistema nervoso está em constante estado de alerta, sobrecarregado pela complexidade do mundo digital, e busca ferramentas para encontrar mais equilíbrio, bem-estar e uma conexão mais profunda com sua própria realidade, as sessões de terapia somática podem ser um caminho de profunda regulação e autoconhecimento. Seja presencialmente em São Paulo ou online para todo o Brasil, estou aqui para ajudar a navegar por essas águas.
Para Saber Mais
Harvard Business Review. (2026). When using AI leads to brain fry. Disponível em:
Shalaby, A. (2024). Classification for the digital and cognitive AI hazards: urgent call to establish automated safe standard for protecting young human minds. Digital Economy and Sustainable Development, Springer.