O processo de cura emocional e física por meio da terapia é muitas vezes surpreendente e até desorientador para muitas pessoas. À medida que alguém começa uma jornada terapêutica, seja para lidar com traumas antigos, estresse crônico ou questões emocionais profundas, um fenômeno comum e inesperado pode surgir: uma exaustão intensa e o desejo por descanso. Este cansaço, que pode ser confundido com desmotivação ou “retrocesso”, é na verdade o corpo e a mente finalmente respondendo a um descanso há muito tempo adiado.
Para entendermos esse fenômeno, é necessário pensar em como o corpo responde ao estresse e ao trauma. Em situações de perigo, nosso sistema nervoso é projetado para reagir rapidamente, liberando hormônios como adrenalina e cortisol. Estes hormônios nos preparam para enfrentar a ameaça através das reações de “luta, fuga ou congelamento”. Esta resposta é natural e extremamente útil em curtos períodos, ajudando a lidar com situações emergenciais. No entanto, quando uma pessoa enfrenta traumas persistentes, ambientes estressantes, ou mesmo padrões de vida que mantêm seu sistema em alerta constante, o corpo acaba “preso” nesse modo de proteção.
Este estado de alerta contínuo consome uma enorme quantidade de energia. O sistema nervoso, ao manter a pessoa em um estado de prontidão, recruta diversos “departamentos” internos para lidar com esse estresse. A energia é retirada de outras funções vitais para manter a atenção constante ao perigo, comprometendo sistemas como o digestivo, o sistema imunológico e o sistema adrenal. Essa sobrecarga leva ao desgaste gradual do corpo, resultando, a longo prazo, em uma lista de sintomas que vão desde problemas digestivos e imunidade enfraquecida até esgotamento físico e mental. A pessoa, sem perceber, vive numa situação em que está constantemente se esgotando, sem a oportunidade de regeneração. E o resultado final pode ser o que hoje conhecemos como burnout — um colapso físico e emocional gerado pela constante fadiga e estresse.
Mas, por que não simplesmente descansar? A questão é que muitas vezes esse estado de tensão e estresse contínuo torna-se quase um modo de vida automático e, na maioria dos casos, inconsciente. Mesmo ao se deitar ou tentar relaxar, as preocupações, a ansiedade e a sensação de estar “perdendo tempo” ao descansar ou de que deveria estar fazendo algo útil bloqueiam o relaxamento profundo. Descanso se torna um verdadeiro desafio, pois a mente e o corpo estão condicionados a uma vigília constante. Para quem sempre esteve nesse ciclo, o repouso chega a ser visto como algo desconfortável, que gera culpa, julgamento e até uma sensação de que está “desperdiçando” tempo. Isso faz com que o descanso se torne mais um desafio, e mesmo o sono não consegue cumprir sua função reparadora.
Quando se começa um processo terapêutico, no entanto, a pessoa inicia um movimento de saída desse estado de alerta contínuo. Gradualmente, a terapia ajuda a mente e o corpo a reconhecer que o perigo não é mais real e imediato, e que agora há um ambiente seguro que permite uma experiência de segurança interna. À medida que a mente e o corpo entendem que não há uma ameaça ativa, surge uma abertura para que o corpo comece a autorregular-se e a usar sua energia para processos de cura e regeneração. Esse é um dos motivos pelos quais muitas pessoas relatam uma sensação profunda de cansaço ao longo da terapia: é o corpo, finalmente, tendo permissão para baixar as defesas e se dedicar ao descanso e à recuperação.
Essa fase de exaustão, portanto, é um sinal de que o corpo está entrando em segurança. É como se, ao sentir-se seguro pela primeira vez em muito tempo, ele pudesse “sentar-se” após uma longa corrida, recuperar-se após um extenuante período de tensão e, finalmente, exalar o ar que segurava por tanto tempo. É um processo de reabilitação de suas forças internas, mas essa recuperação, inevitavelmente, consome energia. O corpo precisa agora de um “orçamento energético” para a autorregulação e o reparo, deixando a pessoa com uma sensação de cansaço maior do que estava acostumada, mas que é um sinal, na verdade, de cura.
Essa exaustão é saudável e necessária, mesmo que confusa e, em certos momentos, frustrante. A necessidade de descanso, a vontade de dormir mais horas ou de diminuir o ritmo são respostas normais de um organismo que está finalmente saindo do modo de alerta e usando sua energia para regenerar células, reorganizar processos internos e equilibrar as funções biológicas. Esse é o sinal de que o sistema nervoso está retornando ao seu ritmo natural, onde o equilíbrio entre ação e repouso pode acontecer de forma saudável.
Algumas pessoas podem passar dias, semanas, ou até meses nesse estado de adaptação, buscando encontrar um novo ritmo de vida, mais alinhado com a saúde e o bem-estar. Esse período exige paciência, compreensão e, principalmente, autoaceitação. É importante que cada um respeite seu próprio tempo e não se apresse a “voltar ao normal”, pois o normal anterior era um estado de sobrecarga. A transformação em curso leva a pessoa a reconhecer um novo padrão, mais compassivo consigo mesma, onde o descanso e os limites tornam-se componentes naturais e saudáveis da vida. Esse período também é uma oportunidade para aprender novas ferramentas de autocuidado e autorregulação que ajudam a pessoa a sustentar o equilíbrio, a manter uma rotina menos desgastante e a reagir ao estresse de forma menos intensa.
Uma vez restaurada, a energia interna abre espaço para novas descobertas, novas atividades e uma vivência mais plena. Não se trata de simplesmente “descansar” para voltar ao ritmo intenso de antes, mas de aprender a respeitar e cuidar dos próprios limites. Para quem está nesse caminho de cura, é normal e até necessário sentir-se cansado, permitir-se desacelerar e entender que o corpo precisa desse espaço para se recuperar, regular-se e fortalecer-se novamente.
No fim desse processo, a pessoa não apenas recupera a vitalidade, mas passa a viver de uma forma mais presente e alinhada com suas necessidades reais. Afinal, o processo de cura e autorregulação é também uma reeducação, um retorno ao corpo e à mente em seu estado de harmonia.