Seu amor próprio é mesmo seu?

Talvez o que você chame de amor próprio não seja exatamente “seu”. O que isso quer dizer?

O que chamamos de amor-próprio ou autoestima não é algo que você cria sozinho. Não é algo que se nasce com ou sem, ou que é tarefa unicamente sua desenvolver. Algo que se você não tem, é culpa só sua.

O amor-próprio começa a ser construído na infância. ⠀ E quem começa esse processo? Seus pais. São eles que cuidando de você dão as primeiras sensações do que é ser amado. De que você pode ser amado. Essa conexão primordial com seus cuidadores básicos ensina muito. Como eles cuidam de você e como eles cuidam de si mesmos vai ser a fundação do seu amor-próprio.

Esse processo ocorre através do que chamamos de corregulação. A corregulação é a capacidade que temos de alterar nosso estado emocional através do estado emocional de outras pessoas.

Quando somos bebês, nós não temos a capacidade de nos regularmos emocionalmente sozinhos, nos acalmando por conta própria. Nosso sistema nervoso ainda está em desenvolvimento e portanto necessitamos de nossos pais ou cuidadores para que eles nos ensinem a fazer isso. E vamos aprendendo pelo estado emocional deles.

Ou seja, se nossos pais são regulados e tranquilos, nós sentimos isso em seu abraço e suas palavras e quando estamos em estado de estresse ou ansiedade é a presença reguladora e tranquilizadora deles que vai nos ensinando como podemos nos acalmar.

No início de nossas vidas, sabemos tão pouco de como regular e mesmo como sentir o que sentimos que precisamos de nossos pais inclusive para isso. São eles que vão nos dando dicas, apontando para nós e dizendo: “Você precisa ir no banheiro; você está com sono; você está irritado pois está com fome, come essa frutinha aqui ó”.

E esse é um processo muito saudável, principalmente quando temos pais amorosos mas que também tem um outro lado: O que nossos pais dizem sobre nós impacta demais em nossa estima.

Quando nossos pais dizem para você: “vai no banheiro que você está apertado” e só então nos damos conta que estamos com vontade, vamos interiorizando que nossos pais nos conhecem melhor que nós! Então sua opinião passa a contar muito pois temos a impressão de que te conhecem melhor que nós mesmos

Isso pode gerar uma dependência emocional em relação à aprovação dos nossos pais, o que influencia diretamente a maneira como construímos nossa autoestima e amor-próprio ao longo da vida.

A questão é que, com o tempo, essa internalização da opinião dos nossos pais pode se tornar um padrão. Podemos começar a buscar validação externa, seja dos amigos, parceiros, ou até mesmo das redes sociais, para sentir que temos valor. Assim, o que chamamos de “amor-próprio” pode estar mais ligado ao que os outros pensam de nós do que a uma autêntica apreciação de quem realmente somos.

Reconhecer isso é fundamental para que possamos, aos poucos, reconstruir um amor-próprio que seja verdadeiramente nosso. Isso significa olhar para dentro e começar a questionar: “De quem é essa voz que diz que eu não sou suficiente?” Muitas vezes, essa voz é um eco das críticas e inseguranças que absorvemos na infância.

O caminho para um amor-próprio genuíno passa por se reconectar consigo mesmo, aprendendo a valorizar suas próprias opiniões, sentimentos e necessidades. Isso não é fácil, e muitas vezes, requer um trabalho profundo de autoconhecimento e, em alguns casos, a ajuda de um terapeuta. Mas é um processo essencial para nos libertarmos das expectativas alheias e construirmos uma autoestima baseada no nosso verdadeiro eu.

Afinal, o amor-próprio é, em última instância, sobre ser capaz de se amar e se aceitar, não por quem os outros acham que você deve ser, mas por quem você realmente é.

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