As armadilhas das boas intenções

Esse final de semana li um texto da Dynamo (vou deixar linkado embaixo com outras referências) que me deixou pensativo sobre o conceito de Consequências não Intencionais, que são resultados não planejados de ações com “boas intenções”. Aquilo que no final costumamos dizer “o tiro saiu pela culatra” ou “O feitiço se voltou contra o feiticeiro”.

Ao longo da vida, acumulamos muitas delas. Em geral, partem de desejos legítimos e até nobres: sermos melhores, mais produtivos, mais disciplinados, mais saudáveis, mais “evoluídos”. O problema é que, muitas vezes, essas boas intenções vem acompanhadas de um processo silencioso de higienização forçada, uma tentativa de eliminar partes de nós que julgamos inadequadas ou inconvenientes. Especialmente quando não aceitamos algo que é inerente à nossa própria natureza.

Lembro de um vídeo que assisti anos atrás sobre um fato curioso ocorrido no parque americano de Yellowstone. Após décadas de perseguição e caça, os administradores do parque decidiram reintroduzir lobos no ecossistema local. Durante muito tempo, esses animais haviam sido considerados “nocivos”: predadores perigosos que ameaçavam cervos e outras espécies. A solução encontrada foi simples: eliminar os lobos.

O resultado, no entanto, foi trágico.

Sem seus predadores naturais, cervos e alces se multiplicaram sem controle. Como herbívoros, passaram a consumir de forma excessiva arbustos e vegetação jovem, provocando um desmatamento progressivo. Esse desequilíbrio acabou alterando completamente a paisagem do parque: árvores desapareceram, áreas se tornaram quase desérticas e até o curso natural dos rios foi modificado. Tudo isso como consequência de uma intervenção bem-intencionada, porém míope, em um sistema complexo.

Muitas vezes, fazemos exatamente o mesmo conosco.

Ao aplicar leis rígidas à nossa própria vida — regras que, na superfície, parecem positivas — esquecemos que nossos comportamentos, pensamentos e emoções formam um ecossistema igualmente complexo, dinâmico e interdependente. Quando deixamos de enxergar nossa experiência de forma integral, corremos o risco de interferir de maneira equivocada e acabar causando mais dano do que cuidado.

Alguns exemplos tornam isso mais claro.

Uma mulher, preocupada com sua performance profissional, decide focar totalmente na carreira. Para isso, corta tudo o que considera “supérfluo”: sair com amigas, dançar, ir ao cinema, se divertir. Aos poucos, sua vida se resume ao trabalho. O resultado? Um ano depois, ela apresenta burnout e desenvolve uma síndrome crônica do intestino irritável.

Um pai divorciado, tomado pela culpa de ter um filho “de pais separados”, tenta compensar sendo excessivamente permissivo. Impõe poucos limites, na esperança de tornar a criança mais feliz — e aliviar sua própria dor. Com o tempo, o filho cresce sem uma noção clara de regras e frustrações, tem dificuldade de encontrar contentamento na vida cotidiana e passa a enxergar o pai como fraco, entrando em conflito constante com ele.

Um político conservador constrói sua imagem pública a partir de discursos rígidos, moralmente irrepreensíveis e aparentemente íntegros. Ganha popularidade, mas ao custo de negar suas próprias pulsões internas de autonomia e liberdade. Anos depois, seu nome cai em desgraça após a descoberta de um caso extraconjugal.

O que esses exemplos têm em comum?

Algo fundamental que aprendi na clínica: todo comportamento, todo sentimento — por mais estranho, inconveniente ou “negativo” que pareça — tem uma razão de existir. Podemos não entender essa razão ou não gostar dela, mas isso não a torna menos legítima. Cortar hábitos, reprimir emoções ou modificar comportamentos sem compreender profundamente o que eles estão tentando equilibrar em nós pode gerar consequências desastrosas.

Às vezes, aquilo que queremos eliminar é justamente o que mantém nossa sanidade em funcionamento.

Isso não é uma defesa do imobilismo ou do “deixa como está”. A reflexão aqui não é um convite ao status quo, mas à curiosidade. Muitas vezes, projetamos nosso desconforto em um vilão interno e tentamos erradicá-lo sem sequer compreender o papel que ele desempenha na trama da nossa vida. Talvez, se olhássemos com mais cuidado, perceberíamos que esse suposto vilão não é tão mau assim. Ou que, na verdade, ele gostaria de ser outra coisa.

Quando compreedemos a dinâmica integral da nossa psique, abrimos espaço para mudanças graduais, mais saudáveis e realmente eficazes. Mudanças sem efeitos colaterais ocultos.

Vivemos pressionados por julgamentos internos e externos que fantasiam como nossa vida deveria ser: mais desempenho, mais beleza, mais moral, mais riqueza, mais estoicismo. Uma vida mais limpa, sem lobos, sem sujeira, sem conflito. Entramos então em guerra com a nossa própria natureza, exigindo dela algo que ela simplesmente não é.

Como dizia Jung, o objetivo do ser humano não é ser bom; é ser íntegro. Não no sentido moral, e sim no sentido de ser inteiro. Com todos os nossos cervos, coelhos, lobos e arbustos.

Se nos permitirmos uma jornada profunda de autoconhecimento, para além das aparências, podemos entrar em contato com nossa verdadeira natureza e promover mudanças que beneficiem o todo — e não apenas uma parte de nós que, isolada, pode estar cega para o ecossistema completo que somos.

Para saber mais: 

  1. Toda essa reflexão veio de uma carta do fundo de investimentos Dynamo (que se você se interessa por investimentos, eu aconselho a ler e assinar). Você pode ler esta carta aqui
  2. Um vídeo falando sobre a mudança do parque de Yellowstone que eu comentei. 
  3. Um outro exemplo das consequências de ações não intencionais na natureza. 

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