Sabe aquele momento em que a raiva ou o medo dominam e você age de forma impulsiva, para logo depois vir o arrependimento por algo que disse ou fez? Esse é um fenômeno comum, mas que pode ser transformado com prática e consciência.
Uma das habilidades mais transformadoras que trabalho com clientes é a capacidade de distinguir claramente o que se sente daquilo que se escolhe fazer. Esse distanciamento é fundamental para o autocontrole e para a construção de respostas mais conscientes diante das emoções intensas. E é uma habilidade que pode ser desenvolvida.
Quando estamos com emoções à flor da pele, isso significa que nosso sistema nervoso entra em modo de alerta. Isso é fisiológico, é uma reação evolutiva que nos prepara para fugir, lutar ou congelar diante de um perigo, mesmo que esse perigo não seja real ou seja apenas simbólico. Por exemplo, posso ficar tenso e nervoso esperando um email que vai definir a minha carreira profissional. Para meu cérebro, é como se fosse uma questão de vida e morte, e ele faz meu corpo reagir como tal. Nesse momento, o cérebro racional — responsável pelo pensamento ponderado e pelo planejamento a longo prazo — perde espaço para o cérebro emocional, que assume as decisões rápidas e instintivas, mas nem sempre de forma racional.
Por essa razão, quando nos sentimos sobrecarregados, é comum que gritemos, tomemos decisões impulsivas, ou busquemos compensações imediatas em hábitos como comer compulsivamente (fuga), gastar além do necessário ou recorrer a vícios (fuga, através de dissociação).
A transformação está em aprender a observar o que acontece por dentro sem agir imediatamente em resposta ao impulso. Esse processo cria um pequeno espaço, uma distância entre a emoção sentida e a ação tomada — e é justamente nesse espaço que mora a liberdade de escolha.
Um método simples e eficiente é a conscientização do movimento do corpo e da respiração: assim que perceber que algo mudou emocionalmente dentro de você, levante-se e afaste-se da atividade em que estava. Mesmo que o motivo ainda não esteja totalmente claro, interromper o que está fazendo e mudar o foco ajuda a desacelerar as reações automáticas.
Por exemplo, imagine que você está tentando terminar um trabalho no computador, mas sente uma vontade crescente de abrir o celular para checar as redes sociais. Nesse momento, levante e vá beber um copo d’água, arrumar algo pela casa ou fazer uma atividade manual, como desenhar. Essa pausa ajuda a romper o ciclo de reação automática, permitindo que você observe melhor o que está sentindo — seja angústia, ansiedade, frustração — e mude o hábito antes de descarregar essa tensão em algo que talvez não seja saudável, como comer junkie food ou tentar descarregar a tensão olhando no feed de rede social (não funciona, na verdade só piora).
Com a prática constante, esse intervalo entre o sentimento e a reação se amplia, diminuindo respostas impulsivas e fortalecendo hábitos mais equilibrados, que respeitam seu bem-estar emocional.
Se você sente que vive reagindo mais do que escolhendo, talvez seja hora de investigar essa dinâmica com mais profundidade. Através da terapia corporal e de técnicas que trabalham diretamente com o sistema nervoso, é possível aprender a regular emoções intensas sem se perder nelas. Essas abordagens promovem uma reconexão entre corpo e mente, ajudando você a reconhecer os sinais sutis de tensão ou desconforto antes que se transformem em reações automáticas. Com o tempo, você desenvolve mais presença, equilíbrio e capacidade de escolher respostas que fortaleçam sua saúde emocional.
Agora, convido você a refletir: em que momentos do seu dia você percebe que age mais por impulso do que por escolha? Que pequenas mudanças no seu cotidiano poderiam ajudá-lo a criar esse espaço essencial para a consciência emocional? O primeiro passo para a transformação começa com essa pergunta — e com a disposição para se cuidar corpo e mente juntos.
Se você gosta de ler ou quer entender mais sobre o assunto, sempre indico “O corpo guarda as marcas”, de Bessel van der Kolk que fala bastante sobre trauma e sobre como nosso corpo reage a gatilhos e situações cotidianos de forma diferente por traumas do passado. É uma leitura densa, mas que pode dar ótimos insights sobre sua vida e seus impulsos.
E se sente que precisa conversar sobre suas reações e impulsos com alguém, me escreve ou comenta aqui! Estou sempre aberto para conversar 🙂