Mesmo com a popularização da saúde mental, ainda existem obstáculos silenciosos que afastam muitas pessoas da terapia. Um deles é o sentimento de vergonha que algumas pessoas sentem, por se sentirem mal ao fantasiar que deveriam dar conta de tudo sozinho, de todos seus problemas.
Essa vergonha nasce de uma crença muito difundida: a de que um adulto “de verdade” deveria ser capaz de resolver seus problemas por conta própria, sem ajuda dos outros. Quando isso não acontece, o sentimento que surge é de fracasso, inadequação e de se sentir incompetente.
Essa ideia é reforçada por uma cultura que exalta o autocontrole, o desempenho, a produtividade máxima. Em lugares que premiam quem aguenta tudo calado, admitir sofrimento emocional ainda é visto, por muitos, como um sinal de fraqueza. Nesses lugares, sejam ambientes corporativos, ou famílias, muitas pessoas sofrem em silêncio e tentam engolir o sentimento de inadequação.
A pesquisadora Brené Brown, cujas palestras e livros sobre vulnerabilidade já foram vistos por milhões de pessoas, diz que o medo de parecermos insuficientes é o que mais nos afasta de uma vida conectada e verdadeira, pois perfeccionismo e o medo da vulnerabilidade são mecanismos de defesa que nos impedem de sermos verdadeiros e de criar laços reais. E isso vale para amizades, relacionamentos e também o processo terapêutico.
Mas de onde vem esse estigma de se fazer terapia?
Durante muito tempo, a psicologia esteve associada apenas a “casos graves”. Nos primórdios da psicanálise e da psiquiatria, o foco eram quadros como esquizofrenia, histeria e surtos. A ideia de que terapia era “coisa de louco” ficou marcada no imaginário social — e ainda ecoa, mesmo que de forma mais sutil.
Mas a psicologia mudou. Desde então, nomes como Carl Jung, Maslow, Winnicott, Alexander Lowen ajudaram a consolidar o estudo da mente e do comportamento humano em várias dimensões: cognitivas, emocionais, somáticas e sociais. Hoje, a prática clínica se expandiu. Existem abordagens diversas — humanista, corporal, cognitivo-comportamental, sistêmica, entre outras — que lidam com sofrimento cotidiano, transições de vida, autoestima, identidade e desenvolvimento pessoal. Terapia não é só para quando tudo desmorona. É também para quem quer se construir, evoluir, se conectar consigo mesmo.
Ainda assim, o estigma persiste. E ele se torna mais enraizado quando se entrelaça com experiências emocionais precoces. Muita gente cresceu sem apoio emocional consistente. Em ambientes onde era preciso “se virar sozinho”, pedir ajuda se tornava perigoso, inútil ou até vergonhoso.
Isso é comum em histórias de parentalização — quando a criança assume responsabilidades emocionais ou práticas que deveriam ser dos adultos. Cuidar de irmãos, esconder sentimentos, consolar os pais, ser “forte” o tempo todo. Com o tempo, essas crianças se tornam adultos que aprenderam a reprimir suas necessidades. Que se acostumaram a não sentir, não pedir, não incomodar.
Na terapia, esse padrão pode emergir como medo: de ser julgado, de não ser compreendido, de se mostrar vulnerável demais. Mas esses medos têm raízes. São parte de um sistema interno de sobrevivência criado há muito tempo. Como explica Peter Levine, o trauma nem sempre está no que aconteceu — mas no que não conseguimos processar. Quando as emoções são abafadas, o corpo e o sistema nervoso guardam essa carga. E isso molda nossa forma de existir no mundo, inclusive nossa relação com o cuidado. Esse isolamento reforça a dor. E a dor, quando ignorada, não desaparece — só muda de forma.
A verdade é que somos seres relacionais. E a cura emocional, na maioria das vezes, acontece no vínculo. No espaço onde existe escuta sem correção. Presença sem pressa. Acolhimento sem julgamento.
Admitir que precisa de ajuda não é um sinal de fracasso. É, na verdade, um ato de coragem. Requer contato com partes da sua história que foram silenciadas. Requer disposição para se olhar com honestidade, e se tratar com gentileza. E muitas vezes, é nesse espaço que a pessoa encontra, pela primeira vez, um lugar seguro para existir por inteiro — com suas dores… e também com suas forças.
Hoje, vivemos um paradoxo curioso: Pessoas fogem da terapia, mas buscar livros, vídeos ou podcasts sobre saúde mental é aceito. Ou até mesmo fazer terapia no ChatGPT. É visto até como sinal de autonomia.
São todas atividades válidas de autocuidado mas escondem um problema. Em geral são questões de relacionamento que geram nossas questões emocionais e portanto é no aprendizado de um vínculo saudável e equilibrado que a cura acontece. Livros, chatgpt.. oferecem insights e ideias, mas não um vínculo real e genuíno. Marcar uma sessão de terapia, sentar na frente de alguém e dizer “eu não estou bem”… ainda assusta muita gente, mas não deveria. E não é necessário chegar no limite pra pedir ajuda.
O espaço terapêutico pode ser o melhor lugar para tratar questões crônicas e inclusive, eu sugiro a você que se sensibilizou com este texto que entre em contato justamente começando por aí: Eu tenho vergonha de estar aqui, eu tenho vergonha de não conseguir lidar com meus problemas, eu nem queria estar aqui.
Antes de ser um empecilho, isso pode ser um belo início em sua jornada para um processo de auto transformação.