Uma resenha do filme sobre saúde mental, relacionamentos tóxicos e traumas.
O filme “Coringa: Delírio a Dois” explora um tema delicado e fascinante: a Folie à deux, uma síndrome psicótica na qual delírios são compartilhados por duas ou mais pessoas. O termo, cunhado no século XIX pelos psiquiatras Charles Lasègue e Jules Falret, descreve uma condição em que uma pessoa, isolada e sob extremo estresse ou trauma, cria uma realidade psicótica. Posteriormente, essa realidade é “transmitida” a alguém próximo — seja um membro da família, parceiro ou outro vínculo afetivo.
Na continuação da saga, vemos o personagem Arthur Fleck, interpretado por Joaquin Phoenix, agora numa fase mais profunda de deterioração psicológica, após passar tempo encarcerado. Fleck, que no primeiro filme manifestou traços de uma psicose nascida de traumas de infância, isolamento e falta de apoio emocional, encontra eco para seu delírio em outros indivíduos marginalizados. Esses, por sua vez, enxergam suas ações como um símbolo de rebeldia contra um sistema falido que não dá suporte a quem se sente excluído da sociedade.
A entrada de Lee Quinzel, a Arlequina (vivida por Lady Gaga), no enredo traz uma nova camada para essa dinâmica. Quinzel, ao se sentir compreendida em seu sofrimento nas atitudes do Coringa, se torna sua cúmplice emocional e, eventualmente, desenvolve um vínculo obsessivo. O relacionamento entre os dois fortalece o delírio, criando uma fantasia conjunta, onde ambos encontram um tipo distorcido de propósito e conexão.
O filme utiliza uma metáfora visual poderosa, nas sequências de musicais, para retratar como os delírios de ambos se alimentam mutuamente. Essa metáfora reflete uma verdade comum nas relações humanas: muitas vezes, ao invés de curar nossas feridas, podemos encontrar alguém com traumas semelhantes e reforçar essas dores através de uma fantasia compartilhada.
E quando a ilusão não é tão extrema?
O filme, em sua essência, alerta para um perigo real e muitas vezes sutil: a facilidade com que podemos nos perder em delírios compartilhados. Quantas vezes nos deixamos levar por ideologias extremas, relacionamentos tóxicos ou fantasias que nos afastam da realidade? Em muitos casos, essas ilusões não são evidentes, e a manipulação ocorre de forma sutil, dificultando nossa percepção da realidade.
É fácil julgar quem está em um estado psicótico ou preso em uma seita radical, mas e quando o delírio é emocionalmente mais “invisível”? Isso pode acontecer em qualquer relacionamento em que, por medo, solidão ou necessidade de validação, entramos numa dinâmica de reforço mútuo de crenças destrutivas. Ao invés de promover a cura, nos mantemos presos a uma narrativa de dor.
Realidade psicológica, fantasia e traumas
O filme oferece uma oportunidade para refletirmos sobre como as pessoas, ao enfrentar traumas não resolvidos, podem criar realidades alternativas como forma de sobrevivência. Nesses casos, o isolamento e a ausência de apoio emocional podem ser gatilhos para estados psicóticos ou delírios coletivos, que se retroalimentam.
Esse tipo de comportamento é um alerta para todos nós, especialmente quando não conseguimos enxergar claramente o que é realidade e o que é fantasia. Assim como no filme, é essencial nos questionarmos sobre as influências que permitimos em nossas vidas. Estamos cercados por conexões saudáveis ou estamos presos em vínculos que apenas reforçam nossas dores?
A terapia como um caminho para a realidade
Cuidar da saúde mental é crucial, principalmente quando enfrentamos traumas profundos ou dinâmicas emocionais complexas. A terapia oferece um espaço seguro para explorarmos nossas emoções, entender nossas narrativas internas e, o mais importante, nos ajudarmos a reconectar com a realidade de forma saudável.
Assim como a Folie à deux nos mostra o risco de reforçarmos ilusões, a terapia pode ser uma ferramenta poderosa para quebrar esse ciclo. Ao buscar ajuda profissional, você pode evitar que seus traumas alimentem fantasias destrutivas e, em vez disso, encontrar novas maneiras de curar suas feridas e viver de forma plena.
Se você ou alguém que você conhece enfrenta desafios emocionais, não hesite em procurar apoio. Cuidar da mente é tão essencial quanto cuidar do corpo, e a terapia pode ser o primeiro passo para uma vida mais saudável e equilibrada.