Você não é quem pensa que é: como traumas distorcem sua autoimagem

Descubra como experiências passadas influenciam a forma como você se vê e como ajustar essa visão pode transformar sua vida.

Recentemente, durante uma sessão, uma cliente me contou como sua autoimagem era extremamente negativa. Seus traumas de desenvolvimento e a forma como sua família falava dela tinham moldado essa percepção. Isso me fez lembrar de um truque que aprendi no meu próprio processo de autoconhecimento e quis compartilhar com ela.

— Você já ouviu falar de paralaxe? — perguntei.

— Não, o que é isso? — ela respondeu, curiosa.

— Paralaxe é um fenômeno óptico. Quando você olha para um objeto e muda de posição, como ao se mover para a direita ou para a esquerda, parece que o objeto se desloca. Mas ele não se moveu, foi apenas a sua perspectiva que mudou. Em câmeras antigas, esse efeito era comum, pois a lente que você usava para enquadrar a foto estava em um lugar diferente do filme que capturava a imagem. Assim, o que você via no visor não era exatamente o que seria registrado. Os fotógrafos experientes sabiam disso e conseguiam ajustar, mas quem não entendia o fenômeno acabava com fotos tortas.

— Que interessante! — ela exclamou.

— Pois é. Com a gente acontece algo parecido. Traumas e vivências distorcem a forma como vemos a nós mesmos e ao mundo ao nosso redor. Mas, quando percebemos isso, podemos começar a ajustar essa visão, como um fotógrafo ajustando o enquadramento da câmera, corrigindo a distorção.

Como isso funciona na prática?

Todos nós usamos pequenos truques ao longo da vida para lidar com distorções em nossa percepção. Um exemplo clássico é adiantar o relógio ou o despertador para chegar pontualmente a compromissos. A pessoa sabe que aquele horário adiantado é “falso”, mas usa esse truque para corrigir um comportamento — chegar atrasado. Com o tempo, ela pode se ajustar e, em um cenário ideal, nem precisará mais dessa estratégia.

Esses pequenos truques funcionam como uma ferramenta temporária. Eles nos ajudam a criar um novo padrão e, com a repetição, começam a nos dar feedbacks mais positivos sobre nossas ações no mundo. Aos poucos, nosso corpo e nosso sistema nervoso vão adquirindo novas experiências e redefinindo a forma como nos vemos.

Eu, por exemplo, sempre tive uma autoestima baixa. Me via como “quebrado” e inadequado. Mesmo quando recebia elogios, sentia vergonha, como se estivesse enganando as pessoas. Embora soubesse racionalmente que não era assim tão ruim, a sensação de inferioridade e o autocrítico implacável continuavam me atormentando. (Aliás fiz um post sobre autoimagem aqui).

A verdadeira mudança começou quando, ao perceber a distorção que havia na minha cabeça, passei a aceitar feedbacks positivos de pessoas que eu admirava. Já que eu não podia confiar na minha própria percepção, decidi, por um tempo, me guiar por outra bússola: a visão de pessoas que eu respeitava.

A importância do feedback externo

Este é o passo essencial nesse processo: usar a realidade como um critério de aferição. Eu sabia que não poderia confiar cegamente na opinião dos outros o tempo todo — isso não seria saudável. Mas, por um período, precisei dessas referências externas para ajustar minha percepção interna.

Ao perceber que pessoas ao meu redor não me viam de forma tão negativa, e ao comprovar que eu realmente era capaz de fazer coisas boas, comecei a aceitar a ideia de que eu também tinha valor. Isso trouxe um alívio imenso e reduziu drasticamente aquela voz interna que sempre me criticava. Hoje, ela ainda está presente, mas agora divido espaço com outra bússola — uma que foi corrigida com a ajuda de outras pessoas.

Todos nós carregamos distorções em nossas percepções. Essas distorções podem ser fruto de traumas, crenças antigas ou até de hábitos repetitivos. O importante é que, ao identificá-las, possamos gradualmente ajustar nossa visão e alinhar nossos pensamentos, sentimentos e ações.

Ajustando a autoimagem

Por exemplo, se eu me cobro excessivamente em um projeto, mas começo a perceber que o feedback dos outros indica que estou sendo injusto comigo, posso tentar aliviar essa cobrança e ver o que acontece. Se o resultado for positivo, começo a reforçar em mim a ideia de que posso ser mais gentil comigo mesmo, ajustando gradualmente a forma como me percebo.

O que comentei com minha cliente sobre paralaxe é um truque, uma ferramenta — não uma solução definitiva. No entanto, esses pequenos truques são fundamentais para que possamos corrigir o curso e, aos poucos, seguir no caminho da transformação. Quando não conseguimos ajustar essa perspectiva sozinhos, a ajuda de um profissional de terapia é indicado para orientar o processo de forma a resolver traumas passados e distorções de realidade.

Reflexão final

Ajustar nossa visão sobre nós mesmos é um processo contínuo. Requer paciência, experimentação e, muitas vezes, o apoio de pessoas de confiança. Que tal começar a observar as distorções na sua autoimagem? Pequenos ajustes podem trazer grandes mudanças, e o primeiro passo é reconhecer que, assim como a paralaxe, muitas vezes não é o objeto que está fora de lugar, mas a forma como o enxergamos.

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